Sábado, 26 de Junho de 2004
...
Manuel Freire - Pedra Filosofal






*







Eles não sabem que o sonho


é uma constante da vida


tão concreta e definida


como outra coisa qualquer



*



como esta pedra cinzenta


em que me sento e descanso


como este ribeiro manso


em serenos sobressaltos



*


como estes pinheiros altos


que em verde e oiro se agitam


como estas árvores que gritam


em bebedeiras de azul


*



eles não sabem que sonho


é vinho, é espuma, é fermento


bichinho alacre e sedento


de focinho pontiagudo


que fuça através de tudo


no perpétuo movimento



*



Eles não sabem que o sonho


é tela é cor é pincel


base, fuste ou capitel


arco em ogiva, vitral


*


Pináculo de catedral


contraponto, sinfonia


máscara grega, magia


que é retorta de alquimista


*


mapa do mundo distante


Rosa dos Ventos Infante


caravela quinhentista


que é cabo da Boa-Esperança


*


Ouro, canela, marfim


florete de espadachim


bastidor, passo de dança


Columbina e Arlequim


*


passarola voadora


pára-raios, locomotiva


barco de proa festiva


alto-forno, geradora


*


cisão do átomo, radar


ultra-som, televisão


desembarque em foguetão


na superfície lunar


*


Eles não sabem nem sonham


que o sonho comanda a vida


e que sempre que o homem sonha


o mundo pula e avança


como bola colorida


entre as mãos duma criança






publicado por Lumife às 00:06
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