Sexta-feira, 22 de Outubro de 2004
VENDAVAL
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Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,


Não achas, soprando por tanta solidão,


Deserto, penhasco, coval mais vazio


Que o meu coração!


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Indômita praia, que a raiva do oceano


Faz louco lugar, caverna sem fim,


Não são tão deixados do alegre e do humano


Como a alma que há em mim!


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Mas dura planície, praia atra em fereza,


Só têm a tristeza que a gente lhes vê


E nisto que em mim é vácuo e tristeza


É o visto o que vê.


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Ah, mágoa de ter consciência da vida!


Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,


Que rasgas os robles, teu pulso de vida


Minh’alma do mundo!


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Ah, se como levas as folhas e a areia,


A alma que tenho pudesses levar


Fosse pr’onde fosse, pra longe da idéia


De eu ter que pensar!


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Abismo da noite, da chuva, do vento,


Mar torvo do caos que parece volver


Porque é que não entras no meu pensamento


Para ele morrer?


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Horror de ser sempre com vida a consciência!


Horror de sentir a alma sempre a pensar!


Arranca-me, ó vento; do chão da existência,


De ser um lugar!


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E, pela noite que fazes mais’scura,


Pelo caos furioso que crias no mundo,


Dissolve em areia esta minha amargura,


Meu tédio profundo.


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E contra as vidraças dos que há que têm lares,


Telhados daqueles que têm razão,


Atira, já pária desfeito dos ares,


O meu coração!


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Meu coração triste, meu coração ermo,


Tornado a substância dispersa e negada


Do vento sem forma, da noite sem termo,


Do abismo e do nada



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(Fernando Pessoa)



publicado por Lumife às 23:19
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2 comentários:
De Anónimo a 25 de Outubro de 2004 às 10:48
Clap, clap!! (fazendo uma vénia ao mestre Pessoa)...Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 23 de Outubro de 2004 às 00:26
kem me dera um vendaval k me arrastasse pra bem longe.
não ligues hj tou com a neura.bjs e bom fim de semana.
my
</a>
(mailto:)


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