Sexta-feira, 3 de Setembro de 2004
POEMA DE AMOR
HarmonieOilS.jpg



.



Sempre soube terminar os poemas


que falam de saudade, de amores


finitos, mas nunca começá-los,


pois o início tem gosto de ausência,


tem cheiro de perda, tem peso de outrora.


.


Amores passados, perdidos, partidos,


apenas convidam ao silêncio,


e a confissão, e a solidão, florescem


implacáveis na ponta da língua,


como brados, como adagas,


e então, ao pretender o afago,


apenas desenho um lamento profundo,


e ao tentar esquecer o inesquecível


implanto as lembranças na retina da memória,


que dói como se fosse o dia da partida


e não a hora das reminiscências.


.


Mas, sim: aprendi a dizer


que não te esqueço; que o eco dos teus pés


- que já foram o meu chão - retumba


a cada passo que caminho


nesta doce amargura escandinava,


escondido entre loiríssimos cabelos


e branquíssimas mentiras.


.


Revejo os instantes


e vejo que o tempo, a destempo,


ensina a dizer que te amo,


que te lembro quando é tarde,


quando a noite do tempo deitou-se


para sempre entre nós, como água


sem barco, como margens sem rio


como um dia sem horas.


.


Difícil começar a dizer


da saudade que sofro,


da angústia que vivo,


da dor que me ataca,


da culpa que sinto,


que não é vã, mas justa:


mea culpa, mea máxima culpa.


.


E os minutos, esses que teimam


em ficar horas a lembrar-te;


e as horas, que ficam dias teimando


em reviver os instantes que não voltam,


apenas desamarram as palavras


que impunes e sem medo


se escrevem letra a letra


lapidando um pedido de socorro,


rabiscando um retorno ao passado,


esculpindo um desejo de futuro,


conquistando uma chance de ventura.


.


Sim, não nego:


quis construir uma ponte de amor,


um dizer de saudade,


um grito de esperança,


um pedido de clemência.


.


Nem mais, nem menos,


nem muito ou pouco,


nem tarde ou nunca:


um tudo ou nada.


.


Sim,


um poema de amor


manchado de saudade,


pintado em cor remorso,


é o que tento iniciar


e não consigo,


pois dizendo que sim,


que te amo


e não te esqueço,


não começo, mas termino.


.


E isso faço, começo terminando


com um resto de esperança,


que é o fim de todos os princípios,


e repito, como um disco,


que te amo, que te amo,


e que deixar-te foi tão duro


como te saber distante.


.


E termino começando,


pronunciando o teu nome,


o que até agora apenas me atrevia:


vivendo de amor, e não morrendo,


suando de ternura e não de angústia


gritando de esperança e não de raiva,


é como digo que te amo,


meu Brasil nunca esquecido.




* * *



publicado por Lumife às 02:01
link do post | comentar | favorito
|

2 comentários:
De Anónimo a 6 de Setembro de 2004 às 11:11
O Micróbio fartou-se do dorso do batráquio e saltou para outro local de infecção... novo endereço: http://o-microbio.blogspot.com Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 3 de Setembro de 2004 às 09:52
WAW!! Os poemas sao todos de tua autoria?
São lindos, e as imagens excelentes, enquadram perfeitamente com os Poemas. Parabéns! Gostei mesmo muito.
Bom fim de semana e um beijo enorme*meialua
(http://meialua.blogs.sapo.pt)
(mailto:luamagica@hotmail.com)


Comentar post

.mais sobre mim
.pesquisar
 
.Março 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.Fazer olhinhos